sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Filme: Crash - no Limite



Olá, para quem ainda lê isso aqui! :D

No primeiro post do ano, vou recomendar a vocês este filme sensacional. Descobri ele pela recomendação de leitura do meu livro do cursinho pré-vestibular, por mostrar a situação atual dos EUA com relação às classes sociais, mas só o vi hoje,.

A sinopse é a seguinte: Jean Cabot (Sandra Bullock) é a rica e mimada esposa de um promotor, em uma cidade ao sul da Califórnia. Ela tem seu carro de luxo roubado por dois assaltantes negros. O roubo culmina num acidente que acaba por aproximar habitantes de diversas origens étnicas e classes sociais de Los Angeles: um veterano policial racista, um detetive negro e seu irmão traficante de drogas, um bem-sucedido diretor de cinema e sua esposa, e um imigrante iraniano e sua filha.

De acordo com o Wikipedia, o filme estreou no Festival de Cinema de Toronto em setembro de 2004 e foi lançado internacionalmente em 2005. O filme fala preconceito em vários segmentos e trata sobre tensões raciais e sociais em Los Angeles.

"" Em Los Angeles ninguém te toca. Estamos sempre atrás do metal e do vidro. Acho que sentimos tanta falta desse toque, que batemos uns nos outros só para sentir alguma coisa. " (Frase de Crash). Partindo de tal premissa, Crash é um filme que demonstra o retrato de uma sociedade marcada pelo preconceito. Este, no entanto, não é refletido na ingênua fórmula preto-branco, mas antes é demonstrado como uma realidade multicolorida e complexa: negros, brancos, muçulmanos,latinos, pobres, ricos .. Tudo começa a partir do roubo de um carro de uma mulher rica. A partir de então uma série de incidentes acabar por aproximar habitantes de diversas origens étnicas e classes sociais de Los Angeles: um veterano policial racista e seu jovem parceiro passivo em relação as suas atitudes; um detetive negro e seu irmão traficante de carros roubados; um bem-sucedido diretor de cinema negro que finge ser budista para não ter exposto sua origem afro-descendente; um imigrante persa que possui um pequeno comércio que vive sendo assaltado; um trabalhador latino que luta para sustentar sua família.. Todos estão lá como peões num intrigado tabuleiro de emoções que afloram conforme eles se encontram, ou melhor, se esbarram no acaso da vida do dia-a-dia. Nesses encontros, os personagens tomam consciência de quem realmente são e a maneira como conduzem suas vidas, muitas vezes patéticas. O sentimento que serve de fio condutor é o racismo presente nos EUA e América do Norte" (Wikipedia)
Esse trecho do Wikipedia descreve bem o que o filme passa, por isso o coloco aqui. É um filme que nos faz refletir, nos faz questionar o mundo em que vivemos. E engraçado que enquanto eu via às cenas, me lembrava deste post antigo que escrevi, porque nele exponho exatamente o que o filme mostra. É gente que sofre com o preconceito e que pratica o preconceito, sem se darem conta do que estão fazendo. No fundo, somos todos vítima de uma sociedade doente, somos vítimas de um sistema complexo de problemas que nos envolve sem nem percebemos. Porque o policial com um pouco de ética e moral, acha que não é preconceituoso por ajudar os negros, mas não percebe que o preconceito já está enraizado em seu consciente de maneira muito mais profunda do que ele percebe. E o contrário também é valido. Tem aquele que é preconceituoso e não nega, que é um babaca, mas não necessariamente seria vilão por isso, porque ele tem moral suficiente para salvar um ser humano. E esses são retratos exatos de pessoas que conheço. 

Eu diria que o preconceito está, fundamentalmente, no olhar. Aliás, o caráter da pessoa está no olhar, bem como aquele ditado, cuja origem desconheço, diz: "os olhos são a janela para a alma". Não importa que palavras você diz, ou o que faz, é o seu modo de olhar para as pessoas, para as situações que determina tudo. E digo "olhar" no sentido amplo da palavra. No sentido de compreender, analisar, lidar com as coisas. E é complicado apontar o dedo para quem tem culpa pelo quê, já que todos queremos a mesma coisa — queremos ser bons, queremos simplesmente ser felizes. No fundo, somos todos culpados e vítimas, ao mesmo tempo. E cada um tenta alcançar seus objetivos com o que tem ao seu alcance, ao seu modo...

Há uma cena no filme em que um outro detetive (o filme não deixa claro o papel do personagem do William Fichtner) questiona o detetive negro sobre seu irmão traficante, mais ou menos assim:
"e o seu irmão, que teve as mesmas chances que você, mas seguiu por outro caminho?" Ele compara o detetive bem sucedido com seu irmão delinquente.

As pessoas adoram dar essa desculpa, sobre chances, mas esquecem de um detalhe muito importante que determina o futuro das pessoas, e que deveriam ser levadas em consideração antes de serem julgadas (e é exatamente o que os Direitos Humanos faz, mas muita gente não compreende - e ao invés de tentarem entendê-los, acham mais fácil negá-lo). Não só a educação que o indivíduo teve, como todas as suas experiências como criança e adolescente, todas as relações pessoais e intrapessoais (sua relações com amigo, vizinhos, familiares, e sua própria relação consigo mesmo) determinam o caráter do indivíduo. Não importa se dois irmãos nasceram numa mesma família e tiveram as mesmas chances. Não importa se um se deu bem na vida. O outro não deve ser incumbido à obrigação de ser igual ao outro, porque ele não é a mesma pessoa! Eles não tiveram as mesma experiências e vivências! Eles não viram as mesmas coisas, não conversaram com as mesmas pessoas, e, consequentemente, não pensaram as mesmas coisas! O ser humano é um bicho muito mais complexo do que isso.

O subslogan é bastante apropriado. "Até que ponto você se conhece." por que, no fundo, ele nos faz refletir sobre, afinal, quem somos. Será que somos assim, tão hipócritas e não percebemos? Será que somos vítimas de algo, sem perceber?

O filme me lembrou outra coisa, também. Outro dia, eu estava conversando com um conhecido sobre o preconceito. Ele é branco, estuda em faculdade particular e trabalha. E me questionou porque tem gente que leva tanto a sério o preconceito racial, mais especificamente contra os negros, se os negros de hoje em dia não foram os negros que sofreram com a escravidão do passado. Para ele, não fazia sentido incriminar alguém que tivesse praticado a injúria (no sentido de maldade mesmo) contra um negro hoje em dia, porque seria o mesmo que um negro chegar para um branco e xingá-lo de branco. Como se um negro que xinga um branco fosse preconceito também. Confesso que já me questionei sobre isso também, e sei que esse pensamento já se passou pela cabeça de qualquer um que tenha parado para pensar um pouco sobre as coisas. E o filme nos dá a resposta de maneira bem clara e objetiva.

Ora, porque eles sofrem até hoje a opressão que seus antepassados sofreram. Por que eles são vítimas do descaso que os brancos cometeram com eles no passado, e que perpetua até hoje. E querer reverter o preconceito, dizendo que xingar um branco de branco é preconceito, é uma enorme falácia. Não podemos esquecer o que preconceito, para que ele seja considerado preconceito, deve se enquadrar uma condição primária: o da opressão. Quando foi que os brancos, alguma vez, sofreram opressão pelos negros? Quantos brancos morrem por simplesmente serem brancos? Quantos brancos foram chutados, chicoteados, humilhados e oprimidos, por simplesmente terem nascido, sem a chance de terem escolhido (e ainda se orgulham disso como se fosse uma conquista! tsc, tsc), com a cor de pele branca?

Eis a resposta para qualquer um que se pergunte o mesmo.

Mais para o final do filme, há um cena muito boa em que um negro delinquente rouba uma van cheia de imigrantes asiáticos. Os asiáticos tinham sido vendidos, provavelmente por algum dono de alguma fábrica, para trabalharem em condições precárias, quase escravistas — o que, infelizmente, ainda acontece nos dias de hoje, e não só nos EUA, como aqui no Brasil também. O delinquente, com sua cota de crimes e delitos, resolve fazer uma boa ação e os libertam. E então, tem a cena em que eles saem "livres" da van. Livres entre aspas mesmo, porque se tornariam escravos da sociedade preconceituosa, escravos da fatalidade. Bem como aconteceram com os negros quando foram libertados de sua condição de escravos. Por que quando acabou a escravidão negra, havia nada que desse garantias aos ex-escravos, os quais ficaram sem trabalho, sem moradias, e jogados à própria sorte, sendo considerados cidadãos de classe baixa. :\ Achei a cena excelente, justamente por mostrar o negro, sem a consciência de que estava fazendo o mesmo que fizeram com eles (os negros), achando que estava ajudando aos asiáticos. É uma bola de neve infinita, entre um que ajuda dois e prejudica três, sem perceber — o que demonstra o quão complexo é o ser humano.

Enfim, achei o filme maravilhoso, desde o inicio, desde a primeira cena, ao fim! Me fez pensar como o homem é mau por natureza (a cada notícia ruim que vejo, me convenço disso), mas por sermos tão complexos e racionais, acredito que ainda temos chance de viver num mundo melhor. Isso ainda está muito longe de acontecer, ainda há muito pelo que lutar e pensar, mas um dia...

O que mais? Ele ganhou Oscar de melhor filme, bem merecido. Eu diria que outro ponto positivo para ele é o modo como a história é contada. Adoro esses filmes que mostram uma gama de personagens diferentes, aparentemente sem nada em comum, mas que aos poucos vão se unindo, se tornando comum a uma causa, a um fato, como esse filme fez. Há outro filme assim que vou recomendar depois, que o assisti esses dias. Assistam ele!!! "Não percam Crash, sob nenhum pretexto!" :)

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