domingo, 9 de fevereiro de 2014

Alguns dos melhores inicios de livros



Se tem uma coisa que mais atormenta os que gostam de escrever, é como começar uma história. Acho que eu já havia dito antes, mas não custa repetir: um inicio atraente, que choque, que chame a atenção, é primordial para atiçar a curiosidade do leitor, e fazê-lo querer continuar a leitura. O inicio da historia é um cartão de visitas para o leitor. E não esqueçam daquela máxima: a primeira impressão é a que fica. Também vale aqui! Se ele gostar do que lê no inicio, há uma grande chance de continuar a leitura até o final.

Enfim, resolvi trazer alguns dos inícios de livros que já li, alguns outros não li ainda, entre clássicos e não clássicos da literatura...inícios de histórias que achei muito interessantes.


Notas do Subsolo (Dostoiévski)
Sou um homem doente… Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina. Além de tudo, sou supersticioso ao extremo; bem, o bastante para res­peitar a medicina. (Tenho instrução su­fi­ciente para não ser supersticioso, mas sou.) Não, senhores, se não que­ro me tratar é de raiva. Isso os se­nho­res provavelmente não compre­en­dem.

A Lua Vem da Ásia (Campos de Carvalho)
Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.

O Apanhador no Campo de Centeio (J.D. Salinger)
Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que os meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lenga-lenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se contasse qualquer coisa íntima sobre eles. São um bocado sensíveis a esse tipo de coisa, principalmente meu pai. Não é que eles sejam ruins — não é isso que estou dizendo — mas são sensíveis pra burro.

O Ventre (Carlos Heitor Cony)
Positivamente, meu irmão foi acima de tudo um torturado. Sua tor­tura seria interessante se eu a explo­rasse com critério — mas jamais me preocupei com problemas do espírito. Belo para mim é um bife com batatas fritas ou um par de coxas macias. Não sou lido tampouco. A única atração que tive por livro limitou-se à ilustra­ção de um tratado de educação sexual que o vigário do Lins fez o pai comprar para nosso espiritual proveito. Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe. O resto é cristianismo e pobreza de espírito.

Crônica de uma Morte Anunciada (Gabriel García Márquez)
No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5 e 30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava uma mata de figueiras-bravas, onde caía uma chuva miúda e branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se todo borrado de caca de pássaros."Sonhava sempre com árvores", disse-me a mãe, Plácida Linero, recordando vinte e sete anos depois os pormenores daquela segunda-feira ingrata.

Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)
Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.

O Estrangeiro (Albert Camus)
Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Re­cebi um tele­grama do asilo: 'Sua mãe fa­le­cida: En­terro amanhã. Sen­tidos pê­sames'. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.

O Professor (John Katzenbach)
Assim que a porta se abriu, Adrian soube logo que estava morto. Ele podia ver isso nos olhos fugidios, no ligeiro curvar dos ombros, na maneira nervosa e apressada como o médico se movia através da sala. Por
isso, as únicas perguntas verdadeiras que imediatamente lhe vieram à mente foram: Quanto tempo tinha? Quão grave seria?

A Borboleta Tatuada (Philip Pullman)
Chris Marshall conheceu a garota que iria matar numa noite quente, no princípio de junho, quando uma das faculdades de Oxford oferecia o baile de verão. Os alunos, às vésperas da formatura, estavam festejando uma última vez, antes de partirem para se tornarem banqueiros de investimentos, diplomatas ou publicitários. 

A Elegância do Ouriço (Muriel Barbery)
“Marx muda totalmente minha visão do mundo”, declarou-me hoje de manhã o jovem Pallières, que, em geral, nunca me dirige a palavra. Antoine Pallières, rico herdeiro de uma velha dinastia industrial, é filho de um de meus oito patrões. Derradeira eructação da grande burguesia empresarial – que só se reproduz por 
meio de soluços limpos e sem vícios -, ele estava radiante com sua descoberta, que me contava por reflexo, sem sequer pensar que eu conseguiria entender alguma coisa.

Deixando Paraíso (Simone Elkeles)
Eu estive esperando um ano por este momento. Não é  todo dia que você tem a chance de sair da cadeia. Claro, no jogo de Monopoly você só tem que rolar o dado três vezes e esperar por um duplo, ou pagar a multa e ser livre. Mas não há jogos aqui no Departamento Correcional, complexo de menores Illinois; ou o DOC como nós os presos o chamamos.


Fonte: RevistaBula

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