domingo, 30 de setembro de 2012

Os Rejeitados - cap 2




"Bom... Talvez não fosse correto comparar a vida com uma roda gigante. De fato, ambas têm seus altos e baixos, e algo inesperado sempre pode acontecer. Mas o problema da roda gigante é que ela sempre nos dá uma mesma visão do cenário, pois ela não sai andando por aí sem rumo. Diferente da vida, que dá voltas, sem jamais ficar no mesmo lugar por muito tempo."







Os Rejeitados
by Amanur
2
...


Bom... Talvez não fosse correto comparar a vida com uma roda gigante. De fato, ambas têm seus altos e baixos, e algo inesperado sempre pode acontecer. Mas o problema da roda gigante é que ela sempre nos dá uma mesma visão do cenário, pois ela não sai andando por aí sem rumo. Diferente da vida, que dá voltas, sem jamais ficar no mesmo lugar por muito tempo.

Talvez seja estupidez minha ainda pensar assim, depois de tanto tempo, ainda mais porque toda vez que conto essa maldita estória, ela derrama aquela lágrima. E toda vez ela me afeta da mesma forma em que a vi pela primeira vez que comecei a pagar pelo que fiz aqui.

Realmente não é muito, comparado com o que ela paga pelo resultado de nossas escolhas, mas espero, profundamente, que ela tenha consciência de que também foi responsável por tudo.

Vejo aquela gota secar sobre a pele clara dela, antes de retomar a narrativa. Afinal, tínhamos o resto de nossas vidas para isso.

“Era uma madrugada fria, na metade de Janeiro do ano de 1917 — cinco anos depois do incidente com os irmãos. O silêncio daquela noite o atormentava com aquelas mesmas perguntas inúteis de sempre, que de nada lhe serviria se não para derrubar os ânimos. Por que ele? Por que aquele dia? Quais eram os planos? Por que tudo aconteceu daquela forma? O que aconteceu? O que acontecerá...?

Até que, de repente, seus pensamentos cessaram ao som de saltos contra o chão, assim chamando sua atenção. A bela moça que passava pela calçada não percebeu que estava acompanhada por um mendigo maltrapilho, de intenções, talvez, maliciosas. Ele ergueu o pescoço, inalando aquela doce fragrância — perfume caro, sem dúvidas — que ela deixara ao passar, tentando capturá-la em sua memória já debilitada pela bebida.

Ela, tão formosa e cheia de graça, caminhava a passos rápidos e curtos, de modo que ele precisava dar uma corridinha para alcançá-la sem que sua presença fosse percebida. Mas, para ele, isso não era problema já que não calçava nada nos pés — era tão silencioso quanto uma brisa poderia ser. Além disso, enquanto ela era banhada pela luz dos postes, ele, mergulhado na escuridão das sombras, a seguia sempre à distância.

O vento gélido daquela noite acariciava os cabelos coloridos da moça, que esvoaçavam ao vento por baixo daquele delicado chapéu. Ela andava sempre muito bem vestida. Naquela ocasião, ela se aquecia com um belo casaco de pele em cor de creme, fazendo par com os sapatos as luvas e a delicada boina que enfeitava sua cabeça. Ela nunca repetia uma roupa sequer. Ele, no entanto, vestia a mesma calça jeans imunda e rasgada que usava há quatro meses. E se aquecia com um velho cobertor em trapos, que encontrara em algum lixão.

Enquanto se esgueirava por entre postes e árvores que enfeitavam a rua, ele se perguntava de onde ela estaria vindo. Era tarde da noite e, apesar de aquela ser uma das zonas mais seguras da cidade, achava inapropriado para que uma moça como ela andasse por aí, tão tarde e desacompanhada.

Havia quatro semanas que o mendigo seguia aquela moça. A primeira vez em que a viu, ela saía de uma loja de tecidos, acompanhada de por um senhor que tinha idade para ser seu avô. Ele os seguiu a pé, do centro da cidade até aquele casarão, e desde então não tira os olhos da mansão. A beleza exótica da moça lhe atraíra. Tinha olhos tão verdes quanto esmeraldas, e cabelos estranhamente coloridos de rosa. A maneira como ela se portava também lhe eram atrativos. Ela caminhava sempre de coluna ereta e nariz empinado. Na verdade, era tão atraente quanto irritante. De longe, qualquer um conseguia ver que a moça era tão arrogante quanto um ser humano poderia ser.

Naquela noite, ao parar diante do belo casarão, um dos mais caros do bairro, ele a observou tirar de sua bolsa as chaves do portão. Meia dúzia de Huskies siberianos veio saudá-la. Mas, como exímios farejadores, logo se puseram a latir para o estranho que se escondia nas sombras, a poucos metros de distância. Temendo ser visto, ele tratou de se esconder subindo numa árvore do outro lado da rua. Por entre galhos cheios de folhas, ele continuou a observá-la, rezando para que ela pensasse que o movimento da árvore fosse apenas o vento soprando.

Desconfiada, ela olhou a sua volta. Já havia alguns dias que ela se sentia insegura, com a estranha sensação de estar sendo vigiada. Mas suspeitava apenas que fosse mais uma armação do seu marido. No entanto, como tudo parecia pacificamente seguro, resolveu não dar muita bola para aquela sensação. Ela teria prestado mais atenção à árvore, se não estivesse tão cansada. E por isso, a moça suspirou profundamente aquele ar frio, e tirou um maço de cigarros da bolsa. O acendeu com um fósforo, e tragou a primeira fumaça enquanto se preparava para enfrentar o marido. No entanto, na distração, deixou o molho de chaves cair no chão. E no momento em que se agachou para apanhá-las, um homem saiu da casa marchando em direção a ela.

— Tens alguma noção do quanto fiquei preocupado? — seu tom de voz calmo não condizia com as expressões corporais que ele exibia. Aquele homem parecia se preparar para atacar um exército de inimigos a sua frente. O rosto estava rígido numa careta brava, narinas dilatadas e cenho franzido.  O homem vestia calça social, com sapatos que combinava muito bem com a pose ereta de sua coluna. Seus cabelos loiros, perfeitamente penteados, reluziam sob as luzes dos postes; o rosto estava impecavelmente barbeado, e parecia pronto para sair.

De longe, o mendigo via poucos detalhes, mas o suficiente para identificar aquele homem, no entanto. E teria sentido inveja se fosse um mendigo qualquer. Tudo o que ele sentiu, no entanto, fora a frustração por não estar no lugar do outro, e muita raiva por sua atual situação.

— Deixe de drama. — ela disse, enquanto esperava que o homem a sua frente abrisse os portões para ela, tragando mais uma fumaça do cigarro — Apenas fui visitar Hinata...
— Engraçado. Acabei de desligar o telefone, e ela me disse que sequer a viu hoje. — ele respondeu, tomando as chaves do portão das mãos dela com certa agressividade, para abri-los por dentro.

Sakura engoliu a seco. Esquecera de telefonar para a amiga antes para lhe pedir cobertura. Mas, pensando bem, do jeito que as coisas andavam meio tensas entre elas, achou que, provavelmente, não faria diferença.  Então, resolveu, mais uma vez, pôr em prática as aulas de teatro que fizera quando pequena.

— Bom, você sabe como ela anda atordoada ultimamente. — disse, fazendo gesto com a mão que segurava o cigarro — Ela sequer sabia me dizer que dia era hoje. Deve ter se confundido. Além disso, estava caindo de bêbada! — e revirou os olhos para acentuar a encenação. Era uma boa desculpa, embora ainda temesse que ele não acreditasse.

Seu marido, de fato, a encarou com desconfiança resoluta no rosto. Havia algum tempo em que dos dois discutiam feio, e as desavenças pareciam não ter fim. Ele achava que a culpa era inteiramente dela, por não entender seus princípios. Mas Sakura insistia em desobedecê-lo à todo custo. E agora, mais essa!, ele pensou. Essa teria sido a quinta vez em que ela desaparecia de casa, sem mais nem menos, e voltava tarde. Ele já temia que isso se tornasse um hábito. Ou pior, que ela estivesse escondendo algo dele.

E, de fato, era o que ela tramava. Sakura saia às noites para se encontrar com uma pessoa. Mas, certamente, não era a mesma pessoa quem ele poderia imaginar. Aliás, ele não podia desconfiar de modo algum de quem fosse. Caso contrário, sua vida estaria ainda mais arruinada. Uma grande e incalculável catástrofe poderia acontecer. Ela tinha consciência disso agora, mas era tarde demais para voltar atrás — uma vez que os erros já foram cometidos. E, infelizmente, aquele engano era irreparável.

Sem dizer mais nada, ela simplesmente passou pelo marido, sempre com a coluna ereta e cheia de convicção com o cigarro na ponta dos lábios, e entrou no casarão. O homem, no entanto, permaneceu por mais alguns minutos do lado de fora, observando a rua calma, cujo silêncio era quebrado somente pelos latidos dos cães. Ele estava lutando contra a raiva que o atingia como facadas no peito. Não queria entrar em casa e começar a discutir novamente com a esposa. Tinha medo de que ela o deixasse, e considerava a possibilidade de fechar os olhos para o que quer que ela estivesse tramando contra ele.

Mas, então, se lembrou de quem ele era.”

Sakura continuava com a expressão dura como pedra, olhando alem da janela, quando resolvi fazer outra pausa para tomar mais um gole de água. Mas olhei para ela da mesma forma, porque é a partir dessa parte que me lembro que nossos verdadeiros problemas começaram.

— Sei que você se lembra dessa noite, por que foi no mesmo dia em que ligaram para dizer que sua mãe faleceu. Não foi mesmo? Você riu como nunca quando leu a correspondência com a notícia, pegou sua bolsa e desapareceu sem dizer nada. — fico mais um tempo olhando para sua cara sem expressões, e pego uma carteira de cigarro do bolso da calça. — Você não se importaria se eu fumasse um pouco, né? — acendi um canudo, e deu uma tragada — Pois é... Não consegui largar ainda. Acho que a essa altura do campeonato nem tem por que. Se eu tiver que morrer, que morra logo. — resmunguei — Enfim... Voltando aos fatos...

“— Naruto Uzumaki. —  disse para mim mesmo, naquele portão, como quem quer marcar seu território. Afinal, era exatamente o que estava em jogo. Eu só não sabia muito bem disso, naquela época. Você saíra dos limites, e não me prestava mais o devido respeito. E eu precisava mostrar a você quem mandava na casa.

O mendigo não conseguiu ouvir a conversa, mas viu o homem entrar na casa, enquanto os cães o seguiam. Assim que se viu novamente sozinho, desceu da árvore e voltou a caminhar pelo pequeno bairro, dando voltas até encontrar um bom lugar para dormir. Encontrou outro morador de rua, já conhecido seu, embaixo da pequena ponte que cortava um pequeno lago. Para ir até ele, precisou escalar a ponte, e descer por ela, tentando alcançar a lateral onde seu companheiro dormia abraçado a uma garrafa de bebida.

— Se encostar um dedo na minha garrafa, arranco seu braço. — murmurou o outro, assim que se pôs ao seu lado.
— Hum. — resmungou, se acomodando sobre o papelão espalhado pelo chão — Comemorando? — indagou, ao ver três garrafas vazias ao lado dele.
— Pode apostar que sim.

O rapaz sempre se apresentava pelo nome de Suigetsu. A vizinhança já estava acostumada com ele, mas quem o via pela primeira vez sempre se assustava com os cabelos brancos do rapaz, que não exibia uma ruga sequer no rosto. Dizia ele que herdara a falta de coloração nos fios do avô, que tinha o mesmo problema. Mas que, fora isso, era perfeitamente saudável. Uma vez, quando era pequeno e ainda morava com os pais, ele visitou um médico farmacêutico. O homem ficara transtornado e perplexo por nunca ter visto algo igual. Era comum pessoas que nascessem com mechas de cabelo brancos, mas não a cabeleira inteira.

Suigetsu gostava de brincar com as pessoas, e aterrorizava sempre que via a oportunidade para tal. Pregava peças em velhinhas distraídas que caminhavam pela calçada, até mesmo crianças para lhe roubar os doces.  Ele tinha personalidade pouco amigável, mas acreditava que seu companheiro ganhava dele nesse quesito.

— Comemorando o quê? — Sasuke indagou.

Suigetsu levantou a camisa velha que vestia para mostrar algo que escondia por baixo da roupa. Sasuke recuou um pouco, desconfiado, mas tudo o que viu foi um saco plástico, transparente, cheio de moedas.

— Onde diabos você conseguiu isso? — questionou.
— Trezentas pratas, limpinhas! — o outro se gabou — Dá para encher a cara por um mês inteiro, com bebida de média qualidade. Estou cansado dessas merdas baratas que a gente consegue.
— Sim, mas de onde você tirou esse dinheiro, Suigetsu? — insistiu. Sasuke poderia ser muitas coisas, menos ladrão.

O rapaz, se sentindo pouco à vontade, sentou sobre o pedaço de papelão que o aquecia por baixo, puxando seu próprio cobertor imundo mais para si. Em seguida, como quem não se importasse com nada — o que era fato — ele apenas deu de ombros.

— O velho do mini mercado da quinta avenida estava dando sopa.
— Você assaltou o mercado? — indagou incrédulo.
— E você está falando demais pro meu gosto! — resmungou, fazendo careta para Sasuke — Ninguém se machucou!

Eis outra novidade. Desde que fora apunhalado pelo irmão, Sasuke se tornou uma pessoa menos comunicativa, e muito mais séria. A vida ganhara um novo sentido para ele, e acreditava que nada mais seria capaz de fazê-lo sorrir como antigamente. Ele se tornara uma pessoa completamente diferente, como de se esperar de alguém que tivera seus dias de bonança arrancados de si com um tiro no peito que não atingiu o coração. Se antigamente ele procurava por um motivo pela qual dedicar sua vida, agora ele tinha um. Não só um, na verdade. Havia dez motivos.

Um por um, ele derrubaria. Incluindo Karin, seu primeiro amor, no qual descobriu não ser mais quem costumava ser. Bem como ele.

Aquela noite, no entanto, não conseguiu pregar os olhos de tanto êxtase que sentia. Mal podia acreditar que finalmente havia encontrado Naruto — o último dos traidores.


4 comentários:

  1. Hheheheheheh mais de uma de suas tramas.Pelo visto voltou as postagens *.* FELICIDADE PLENA!
    Enfim,amei!
    PS:Hehehehe não brigue comigo,mas tenho certeza que já ouviu falar no livro 50 Tons de Cinza e sinceramente acho a sua cara u.u
    Não me culpe
    Kissus Ja ne

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  2. Amanur,porque você parou de postar histórias no nyah?

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  3. oiee, Rafa!!! eu ainda não li esse 50 tons de cinza. Mas pretendo comprar a série quando sair os tres. por enquanto, eles ainda estão caros — decidi que só compraria livros pelo preço abaixo de 20 reais. pq hj eles estão 31, pq todos estao falando nele..mas ano que vem, vou achar por 19..se não 9,90 na saraiva. ja livros caros baixarem drasticamente de preço! T__T mas enfim...
    bjsss :***********

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  4. oi, anonimo...então..nao to postando ainda no nyah..na verdade, por vergonha! iuahauiahui to devendo capitulos de outras fics...e tbm porque nao sei se vou conseguir finalizar essa. E a frequência das postagens será bem mais lenta agora...mas conforme for, eu coloco a fic lá daqui a mais uns dois caps aqui...É mais pq eu amo esse blog, e nao queria deixá-lo parado, sem nada...:/

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