sexta-feira, 13 de abril de 2012

Desabafo #2

Desculpe, não sei escrever bonito sobre um sentimento feio como a tristeza. Além do mais, o que mais eu poderia falar quando tudo o que me cerca é a ignorância, estupidez, cegueira, desprezo, egocentrismo, egoísmo, incompetência, insensatez...?


Há uns três anos atrás, eu estava na sala de emergência de um hospital com minha mãe, esperando ser chamada para o atendimento. Minha mãe estava passando mal, quando me afastei um pouco para pegar água, e pediu ajuda a uma senhora que passava por ela de mãos dadas à um menino. E eis que esse monstro (me nego a chamá-la de mulher) lhe disse:


— Não posso fazer nada, não te conheço, não é da minha conta! 


Não foram exatamente estas palavras que usou, mas algo bem parecido. Fiquei estarrecida. Cadê a humanidade das pessoas? A mulher ainda usava saia jeans tão comprida quanto sua trança grisalha, e ainda carregava no pescoço uma corrente de prata cujo pingente era um crucifixo. 


Confesso que desejei que ela passasse mal também, para que eu pudesse lhe dizer o mesmo, e ainda não deixaria que ninguém a ajudasse.


Sei que não é correto (independente das minhas crenças) pensar desta forma, mas não pude evitar. A raiva, a frustração e principalmente a indignação foram fortes demais. Jamais vou me esquecer daquela cena, e da expressão de desconsolo da minha mãe. A mulher ainda agarrou a criança que estava com ela, e se afastou como se pudesse ser contagiada por alguma doença grave. 


Minha mãe não tem nada contagioso. 
Minha mãe tem imunidade baixa. Não é um vírus, nem bactéria, e muito menos um fungo. Mas não vou entrar em detalhes para não aborrecê-los com os meus probleminhas — tão pequenos e insignificantes para tantos, em comparação com o que o mundo sofre.... Estou escrevendo porque preciso botar para fora essa coisa que está trancada na garganta, e não quer sair com lágrimas. Parece um bolor de mofo, seco, imundo, mal cheiroso... cheio de negativismos. 


É amargo.


Minha mãe está de volta ao hospital. Um hospital que está com déficit de leitos, macas, aparelhos, mas, ao mesmo tempo, está gastando uma fortuna para construir um estacionamento de quatro ou cinco andares. 


Dá para acreditar?


Minha mãe, precisando urgentemente — mais urgente do que uns, e menos do que outros — ser atendida, ficou um dia e meio num leito a espera de um quarto, no meio de um corredor estreito com outros pacientes. Pacientes idosos, que resmungavam de dor o tempo todo. Havia uma senhora, com problemas de hidrocefalia (água no cérebro), não parava quieta em seu leito, e berrava o tempo todo atordoando quem precisava de descanso. Ela chegou a defecar em sua cama, e os enfermeiros gritaram com ela e ameaçaram amarrá-la. 


Em que condições um paciente pode se recuperar vendo outros passar mal? Quartos privados para todos os pacientes são necessários!


Minha mãe chegou a chorar vendo o estado crítico de alguns dos pacientes sem tratamento adequado e imediato — E olha que ela não está no pior hospital da cidade (realmente falta muito para ser o melhor, no entanto), e nem depende do SUS! Mas sabe o que era ainda mais revoltante? O descaso dos enfermeiros. 


E são deles que realmente quero falar. 
Os hospitais deveriam dar algum treinamento prévio a eles. Exigir normas de conduta, e dar a eles um dicionário. Alguns parecem não saber o significado da palavra "silêncio", nem de sua importância num hospital.  


Correm para todos os lados falando em voz alta, e não falam apenas sobre pacientes, medicamentos, exames... falam da filha que foi para a escola sem seu lanche, falam da unha pintada que quebrou, do cabelo que está caindo sobre o rosto, ou como estão loucos para tirar o dia de folga.


Sério!


Como se alguém fosse para o hospital por gostar de olhar para a cara deles! ¬¬ E que muitas vezes, aparecem no quarto com a maior cada de bunda mal lavada, cheios de má vontade. É degradante.


Minha mãe sequer queria ir para o hospital, de tão horrível que é o atendimento. E ela precisa de atendimento hospitalar, pois está com anemia, com falta de açúcar e potássio, estava há dois dias com febre de 40º graus, com vômitos e diarreia, e mais outras tantas coisas...  


Minha mãe também tem uma úlcera na canela esquerda. O ferimento começou pequeno, como um esfolado, e foi crescendo aos poucos. Agora está do tamanho de duas palmas e meia. Em carne viva. 


Hoje, uma enfermeira gordinha, com cara de simpática, sorridente, entrou no quarto (ela conseguiu um ontem de madrugada!) para trocar o curativo. Haviam posto gazes por cima, e o tecido grudou no ferimento. A criatura estúpida foi arrancando aquilo com a menor das delicadezas. Minha mãe berrou, chorou, agonizou, ficou pálida, e por pouco desmaiou. Mas a enfermeira dizia:


— É assim mesmo! Aguente firme.


Infelizmente, fiquei chocada demais com tudo aquilo para mandar a enfermeira para a puta que pariu e que aguentasse uma no rabo (me perdoem o palavreado, mas é somente com ele que consigo expressar minha frustração e raiva). E então veio todos aqueles sentimentos ruins que mencionei no inicio. As pessoas não sabem o sofrimento do outro até que passe pelo mesmo. Mas o mais revoltante é a falta de sensibilidade de alguns. A falta de amor pelo trabalho que executa, a falta de prazer genuíno em ajudar os outros. E a falta de ética. 


É falta de ética e moral, fazer o que não gosta e ainda prejudicar os outros por isso...


Estou exausta. Passei a semana inteira no hospital ajudando minha mãe com coisas que era para enfermeiros fazerem, mas que não fazem por que estão ocupados demais conversando e fazendo fofoca na enfermaria. Chamei uma enfermeira para ajuda-la a tomar banho, e ela demorou mais de meia hora a aparecer. "Como faz" se minha mãe tivesse tendo um ataque cardíaco?


Minha mãe não tomava um banho decente desde terça feira, quando foi para o hospital. Obviamente, como todo brasileiro, sentia mais do que necessidade por um banho "de verdade". Então, a ajudei a arrastar os pés até o chuveiro, depois de toda essa espera ridícula. 


E quando a enfermeira apareceu ainda disse:


— Ela já está tomando banho, não podemos ficar aqui. Chame quando ela acabar!


Acho que sou muito bunda mole, às vezes, e tenho vontade de chorar por isso. Eu não deveria ter ajudado minha mãe por que não tenho treinamento algum para isso. Se ela desmaiasse, ou sei lá o que mais poderia acontecer, eu não saberia como proceder. Minha mãe, de fato, vomitou, mas nada que eu não pudesse socorrer. De qualquer forma foi um absurdo. Um abuso. 


Entendo que há outros pacientes com mais necessidades, mas minha mãe é uma senhora de 61 anos, que mal caminha por que tem osteoporose e artrose acentuada. Os pés dela são tortos, e tem pouca sensibilidade na pele. Se pisasse em pregos, ela se feriria gravemente e não sentiria.  


Compreendem minha indignação? E juro que não estou exagerando quando digo que é o que eles fazem. Nem todos, realmente; não serei injusta. Mas é o que a grande maioria faz.


Eu não entendo, me revolto e tenho vontade de puxar o cabelo de algumas pessoas até arrancar todos os fios. Se eu pudesse, ainda chutava a cara deles, e cuspia em cima... Juro! 


Mas me controlo. Até demais.
Mais uma vez, desculpe-me pelo desabafo. Mas, as vezes, as palavras precisam ser ditas de alguma forma para trazer algum alívio. E como sou péssima em oratória, a escrita é minha única salvação algumas vezes...

4 comentários:

  1. A revolta que eu senti lendo essa postagem foi imensa...

    Eu sei bem como é nos hospitais porque precisei e meu pai também ficar um tempo naquele lugar que chamam de hospital.

    Amanur, eu realmente não sei o que dizer, mas nunca deixe de desabafar. É bom e isso dá um alívio, mas também não deixe de chorar, é recomendadíssimo.

    Fiquei abismada pela falta de assistência dessas pessoas que tiram diploma. Sério. Eu achando que aqui em Brasília era pior, mas to vendo que existem piores.

    Amanur, sou sua fã, estou aqui para o que der e vier. Não só eu como todos aqueles que amam e gostam de você. Você vai vencer essa. Vamos vencer essa juntos!

    Estarei, em minhas orações, pedindo a Deus pela sua mãe. Nossa, até me emocionei aqui agora. Tenho fé em Deus e que Ele, com toda certeza, independente da religião da sua mãe, se ela tiver fé, Ele irá ajudar.

    =D

    ResponderExcluir
  2. Faço das tuas, as minhas palavras. Tenho um caso parecido, mas fatal! Esse ano, no inicio, antes do meu aniversario, o pai de uma amiga estava doente, tinha cirrose. Então, em uma madrugada, por volta das seis da manhã ele passou mal, defecou sangue. Então, sua mãe ligou para o SAMU, acho que a ambulância chegou rápido, não lembro. O que ocorreu é que quando chegaram ao hospital, não havia vagas na UTI, e ele ficou em um quarto, sofrendo e agonizando, o dia inteiro, o sedavam, mas o sedativo não fazia efeito, e ele passando mal, sentindo, provavelmente, a dor da morte, se debatendo em cima da maca. Ele, mesmo passando mal, tentava tranquilizar sua esposa, dizendo que estava tudo bem, que ele estava bem e não sentia nada. Até que o sedativo fez efeito, e ele dormiu. Durante a tarde, ele teve que ser entubado, e já estava tão critico, que o sangue subia pelo tubo. Não deixavam mais a mulher dele entrar na sala ou quarto onde ele estava, e os amigos presentes tentaram o dia inteiro conseguir uma vaga na UTI, até que a noite, conseguiram um mandato do juiz para o hospital coloca-lo na UTI, e eles que se virassem. Mas, infelizmente, dez minutos depois que o mandato chegou, o pai de minha amiga faleceu. Lembro que antes disso tudo, no inicio, ele havia se consultado, e o medico disse que teriam que fazer um provável transplante de fígado – e realmente precisava – e ele viajou para se tratar, e o outro medico disse que não precisava de transplante, que era só seguir o tratamento. Eu imagino que se fosse com alguém da família de tal medico, ele se preocuparia em fazer um diagnóstico melhor, e realmente ver a gravidade do problema. Melhoras pra minha avó de mentirinha, beijos, sua linda!

    ResponderExcluir
  3. Olha, de fato o descaso das pessoas é um absurdo! Não há respeito algum entre as pessoas, no máximo a tolerância.

    E essa falta de ética, pra mim é uma palhaçada do caramba. Antigamente, as profissões que as pessoas tentavam seguir, condiziam com as vocações e sonhos, agora, o que importa é o salário, apenas. Saiba que esse descaso, sofrido pela tua mãe já é algo corriqueiro - pelo menos aqui em São Paulo. Quando o meu irmão teve meningite, não havia leito, então deixaram-o num consultório vazio. A maca ficou espremida com a mesa do médico.

    Mas enfim, sobre tu acabar fazendo o trabalho da enfermeiro, sei que não é o certo, mas acredito que teria feito o mesmo. Aliás, admiro a tua paciência, do jeito que eu sou, teria falado umas boas para a enfermeira, se não, dado umas na cara dela. Admito, saio do controle facilmente.

    Mas enfim, poderíamos ficar horas e horas discutindo sobre isso, mas deixemos para outro momento ;)
    bjsss :**

    ResponderExcluir
  4. Gente, agradeço a mensagem de todos! Realmente a saúde publica é coisa seríssima. Como eu disse, sei bem que há pessoas muito mais necessitadas do que minha mãe... mas minha indignação aqui vai para os enfermeiros. Se eu fosse comentar todos os problemas que um hospital carrega, eu escreveria um livro! É problemas com higiene, a demora estupida dos elevadores (de vez em quando vemos macas com pacientes viajando de um andar para o outro, que precisam de urgência), a falta de medicamentos no hospital (minha irmã teve que sair em busca de farmácia para comprar um remédio que o hospital estava em falta), a má formação de alguns profissionais, o péssimo atendimento da recepção, a burocracia para dar baixa...e por aí vai. Um livro. E sei bem que isso não é só aqui, mas no Brasil inteiro. É vergonhoso mesmo.

    Mas independente da urgência da minha mãe, com relação a outros, é exaustivo. Não só ela sofre, como eu e minha irmã sofremos junto com isso. O sofrimento dela é real, e constante. E o descaso dos enfermeiros piora a situação dela. Agente vê na cara de alguns que não gostam do que fazem. O ambiente hospitalar já nao é agradável, e tendo que olhar para as caras de mal amados deles não ajuda em nada. Tem uns que mal olham para a cara do paciente; vão no quarto só para dizerem à enfermeira chefe que estiveram lá. É horrível... E ainda há aqueles que entram com aquele sorriso sínico, como se a vida fosse bela, e nada é com eles. É igualmente horrível. É falta de respeito, em minha opinião. Mas não me entendam mal, não estou dizendo que por que um sofre, o mundo inteiro deve sofrer. Claro que não.

    Mas enfim, agradeço de coração as palavras de conforto de vocês! <3

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...