sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Modos Narrativos



Uma das primeiras coisas que eu penso, quando tenho uma ideia na cabeça, é quem será o narrador da minha estória. Será uma personagem, ou alguém oculto?


O que faço para decidir, é me perguntar sobre os protagonistas. Terei apenas um protagonista, ou mais de dois? Além disso, devo saber o que eu vou querer revelar ao leitor sobre eles. É importante ter isso bem claro na mente. Eu vou querer revelar os pensamentos de todas as personagens, ou não?

Como é de responsabilidade do autor prender a atenção do leitor sobre sua obra, é importante que o escritor tenha bem claro na cabeça, ou no papel, o que ele quer fazer com a sua história. Se ele vai contar sobre a vida de uma pessoa, ou de mais? É a partir daí, então, que se decide se a estória será contada na primeira, segunda, ou em terceira  pessoa.

Vamos, então, às definições. 




Narrador: é aquele que conta a estória. 
É importante notar que o narrador só pode contar as coisas que experimentou, os cheiros que sentiu, as paisagens que viu ou histórias que ouviu. Isso é fundamental, principalmente, quando o narrador é uma das personagens — em primeira pessoa. Você não pode jamais, contar o que aconteceu com fulano, quando este não estava no campo de visão do narrador. Por exemplo, em "Incógnita", a narradora é a Sakura (primeira pessoa). Jamais poderei escrever uma cena que aconteceu com o Sasuke na rua, quando ela estava dentro de casa por que ela não tinha como ver o que ele estava fazendo. No entanto, há um caso mais específico em que isso é possível, sim. Mas falarei sobre isso mais abaixo.


Lembrando que, em suma, a narração apresenta ao leitor os seguintes itens:


- Apresentação;
- Complicação ou desenvolvimento;
- Clímax;
- Desfecho
.

...

Tipos de Narradores

Onisciente: é um narrador que tudo sabe e tudo vê. Geralmente é mais utilizado em terceira pessoa. Aliás, acho que é mais fácil ser um narrador onisciente em terceira pessoa. Mas a primeira também pode ser um narrador onisciente, onde às vezes entra em cena para contar algum fato e, de repente, sai dela para contar o que sabe a cerca das outras personagens/fatos. E nesse caso, o narrador não se limita a narrar como também comenta a história e aspectos referentes a ela.

Um exemplo de narração onisciente em primeira pessoa:

"Eu estava atrás da porta quando ele entrou no quarto com aquela ruiva. Os dois discutiam como se estivessem prestes a cometer alguma loucura. Ela não parava de chorar e soluçava os prantos. De repente, ele a empurrou para cima da cama e apertou-lhe o pescoço. Espiando pelas brechas, vi a ruiva revirar os olhos, lutando pela vida.

Enquanto isso, no jardim da casa, eu sabia que Naruto aparava a grama, com os fones de ouvidos. O loiro, distraído como sempre, sequer desconfiava da cena que desenrolava diante dos meus olhos. Afinal, ele sempre foi um cego ao que se referia aos dilemas dos outros. Só se importava consigo mesmo. A casa poderia estar caindo, que ele não daria a mínima para isso!"

Viram? A personagem narra o que ela estava vendo, para, em seguida, se transportar para um outro espaço, como se estivesse fora da cena e fosse apenas uma espectadora dos fatos. Isso é possível sim, mas é preciso alguns cuidados quando for escrever com essa narrativa. É fundamental que se diga a opinião do narrador a cerca dos fatos. 


Personagem: um narrador-personagem é aquele que tudo sabe a seu respeito, obviamente, mas não em relação às personagens que o cercam. Além disso, ele não pode ver o contexto com tanta clareza por que não faz parte de tudo o que acontece a sua volta. Mas ele pode narrar uma história em que é protagonista ou não. O narrador-personagem não precisa ser, necessariamente a personagem principal da trama. No entanto, é quem conta na 1ª pessoa a história da qual participa também como personagem.

Ele tem uma relação íntima com as características subjetivas, emocionais da trama. É nesse modo de narração em que os sentimentos e pensamentos são mais explorados e explícitos. Mas, ao mesmo tempo, esse narrador é 
parcial, por que o leitor tem contato somente com o ponto de vista dele.

Exemplo de narrador-personagem:

"Ele estava ali, bem na minha frente. Nos olhos pareciam se tocar, mas aquilo não foi o suficiente para fazê-lo ficar. Talvez, eu não tenha sido convincente o suficiente. Ou, talvez, eu apenas não tenha sido o suficiente para aplacar o que quer que o incomodasse. E assim, simplesmente, ele me deu as costas. O observei desaparecer entre a névoa da noite, para nunca mais o ver. E a mim, restou apenas perecer com as lembranças do nosso passado, sentindo a dor da solidão me desmanchar um pouco mais a cada dia. Ele foi covarde em não querer ficar, e enfrentar tudo de cabeça erguida, engolindo as lágrimas e a angustia, como eu tentava fazer."

Deu pra entender? Ela contou o que aconteceu, e ainda expressou os sentimentos e opinião, ao dizer que ele foi covarde.

Observador: também chamado de narrador-câmera ou narrador testemunha, limita-se a contar uma história sem entrar no "cérebro" ou "coração" das personagens. Conta a história do lado de fora, sempre na 3ª pessoa, sem participar das ações. Ele conhece todos os fatos e por não participar deles, narra com certa neutralidade. Apresenta os fatos e os personagens com imparcialidade. Não tem conhecimento íntimo dos personagens nem das ações vivenciadas anteriormente por ela. Esse tipo de narração é, basicamente, descritiva.
Exemplo de narrador-observador:

"Sakura entrou no quarto, tirou seus sapatos e os guardou no armário. Em seguida, despiu-se e mergulhou na banheira de sua suite. Mais tarde, o telefone tocou. Ela caminhou às pressas até sua mesa, onde o aparelho se encontrava, e atendeu a ligação."

Percebam que eu não contei nada sobre o que ela estava sentindo ou pensando. Apenas apresentei os fatos e ações presentes dela.

...
Bom, agora vamos tratar das pessoas narrativas, ou ponto de vistas.

Primeira-pessoa (eu, nós): a personagem, participante da trama, é quem conta a estória. Com esse tipo de narrador, os escritores tem a liberdade de mostrar ao leitor os pensamentos da personagem. E ele pode ser protagonista ou personagem secundária. Nesse caso, ele apresenta aquilo que presencia ao participar dos acontecimentos. Dessa forma, nem tudo aquilo que o narrador afirma refere-se à “verdade”, pois ele tem sua própria visão acerca dos fatos; sendo, assim, expressa sua opinião. Acho que todos aqui estão bastante familiarizados com narrativas em primeira pessoa, certo? Não preciso exemplificar...


Segunda-pessoa (tu, você): pouquíssimo usado na literatura. Eu mesma, nunca sequer peguei num livro em loja ou mesmo em biblioteca que estivesse em segunda pessoa. No entanto, já li uma fic assim. Era em inglês, mas achei MUITO legal. Porém, acredito ser a mais complicada de todas. Em segunda pessoa, o narrador sabe que o leitor está ali, o ouvindo, e refere-se, sempre, diretamente a ele. Assim, ele inclui o leitor na história como um participante, uma personagem. Basicamente, o narrador conta a história do leitor.

Vou exemplificar esse:

"Você estava lá, segurando o corpo dele, enquanto Sakura corria por todos os lados atrás de ajuda. Sasuke revirava os olhos, tentava dizer algo, mas você estava tão concentrada na possibilidade da morte do rapaz que não reparou que ele tinha algo a lhe dizer. Para você, tudo o que interessava era aqueles últimos momentos de vida com ele. Em sua cabeça, vinha as lembranças dos últimos momentos em que passaram juntos. Seu coração batia com toda a força contra seu peito, e sua respiração já estava ofegante. Você estava desesperada, e não sabia mais o que fazer."

Entenderam? ;) Se por acaso alguém for se aventurar na segunda pessoa, tome cuidado com a imparcialidade. Lembre-se que o narrador conta o que vê na "personagem-leitor". Além disso, é preciso cuidado com a repetição do "você". Se repetir muito, e isso vale para qualquer palavra, pode tornar a leitura cansativa e espantar o leitor. E é por isso que eu acho ela um tanto complicada. Se alguém souber ler bem em inglês, e quiser que eu mande aquela fic que eu comentei antes, me avise que eu a procurarei. ;) Ah, mas aviso que não era fic do Naruto. Tenho quase certeza de que era do Dogs. Mas como referência, acho que é válido.

Terceira-pessoa (ele(a), eles(as)): é a pessoa mais usada na literatura. 
Em 3ª pessoa, o narrador sabe de tudo e é oculto. Ele pode nos oferecer os sentimentos, as ideias, os pensamentos, as intenções e os desejos de todos as personagens, coisa que a primeira e segunda pessoa nem sempre permite. Pois grau de conhecimento desse narrador, em relação aos personagens, pode variar. Pode ser objetivo e limitado, mostrando apenas o que é visível e observável (como quem captura imagens com uma câmera), ou pode ser subjetivo e onisciente, tendo conhecimento e controle sobre tempo, lugares e eventos, além de ter acesso aos pensamentos e sentimentos das personagens. Também é possível criar um narrador que, por exemplo, saiba tudo sobre o protagonista – incluindo seus desejos, medos, angústias – mas seu conhecimento esteja limitado a esse personagem; ou seja, ele narraria apenas fatos sobre uma única personagem.

Acho que todos estão bastante familiarizados com a terceira pessoa também, certo?

Ponto de vista alternado: alguns autores ainda preferem alternar o ponto de vista entre primeira e terceira pessoa. Na saga House of the Night, as autoras fazem isso. Em um capítulo estão no ponto de vista da protagonista, que é narrado em primeira pessoa, e no capitulo seguinte já apresentam a terceira pessoa para narrar algo fora do contexto da protagonista; algo que ela não está vendo acontecer. Ainda há a possibilidade de fazer com que a primeira pessoa comece a história contando os fatos num dado presente, para, depois, continuar a trama como se estivesse lendo "cartas" em terceira pessoa, num tempo passado. Desta forma, a história aparece meio cortada em partes, alternando o ponto de vista da primeira pessoa que, de repente, aparece para fazer seu comentário. Se não me engano, o anime (não sei se o mangá também) Baccano! é assim. 


Vou tentar exemplificar esse:

"Eu estava na cozinha quando o meu primo entrou às pressas, todo esbaforido. Olhei intrigada para ele, sem entender o porquê de todo aquele alvoroço. Ele me olhava com os olhos esbugalhados, se forçando a me dizer algo. Quando conseguiu recuperar o fôlego, foi despejando todas as atrocidades que descobriu sobre nossa família.

— Ouvi seu pai contando essa história para sua irmã, Hinata! Não há dúvidas sobre o que aconteceu. Agora, tudo faz sentido. — fiquei ouvindo aquela história, de boca aberta. 


O irmão gêmeo do senhor Hyuuga vendeu o filho para o pai de Hinata. O homem passava por momentos difíceis, quando o garoto tinha somente três anos. Naquela época, o pai de Neji sofria problemas com o álcool, e era viciado em jogos. Apostava altas quantias em dinheiro. Sabendo dos problemas do irmão, o pai de Hinata, com pena do ambiente hostil em que o menino poderia crescer, resolveu tomar conta do pequeno tirando-o das mãos irresponsáveis do seu pai. Mas para ajudar o homem, no entanto, pensou naquela proposta de troca. Daria dinheiro ao irmão, para poder ficar com o menino.

Não pude acreditar quando Neji me contou a história. Meu pai jamais poderia ser capaz de fazer tal coisa. Eu sei muito que ele ama meu primo como se fosse o  próprio filho. Mas se isso for mesmo verdade, tenho certeza que lamenta o que fez. Tenho certeza de que não o fez com o intuito de tratar Neji como mero objeto vendável. Tudo o que o velho Hyuuga queria era ajudar seus entes queridos.

— Tenho certeza de que você entendeu tudo errado, Neji. — lhe disse.
— Ouvi tudo em alto e bom tom.

O rapaz se escondia atrás de uma árvore, no pátio do casarão, e viu o sorriso despreocupado nos lábios do tio, enquanto contava as atrocidades do pai como se tudo não passasse de uma história para criança dormir. O homem não sentia o menor remorso pelo que fez."

Coitadinho do Neji T_T foi vendido! iauhauiahuiahai Bom, tosquices à parte, deu pra compreender, certo? A terceira pessoa, nesse caso, serve para contar um fato passado como se fosse uma lembrança da personagem. E essa lembrança tanto pode ser da protagonista, ou não. E para diferenciar as narrações, para que não haja confusão por parte do leitor, o escritor pode deixar a parte da terceira pessoa em itálico ou entre "aspas". Mas peloamordedeus!, não me venham com aqueles flashback on/off — como já expliquei neste post — que eu corto os dedos de vocês! Aiuhaiuahuihauii T_T


Bom, além disso, ainda há com o que se preocupar. Como, por exemplo, o tempo narrativo. Vocês podem escolher se a história que vão contar é algo que se passou há muito tempo, se é algo que está acontecendo, ou se é algo que VAI acontecer. E aí, é preciso atenção com os tempos verbais! :D E quando se alterna entre presente e passado, por exemplo — algo bastante comum — é preciso cuidado redobrado com os verbos.

No mais, é isso. Se alguém tiver alguma dúvida, é só mandar! ;) Agradeço à Pimentinha pela dica para esse post também! *_* E espero que tenha ajudado. 

bjss :*************

6 comentários:

  1. Realmente, tudo o que tu escreveste foi de grande ajuda :)
    Você conseguiu explicar além das minhas dúvidas T_T assim, sinceramente, eu nunca li nada em 2° pessoa, e é provável que eu não me arriscarei em escrever algo desse tipo. Já em 3° pessoa, já que eu não tenho prática, vou tentar escrever coisas fáceis e curtas, apenas para praticar. Afinal, não basta apenas saber o conceito.

    Mas sabe, lendo o teu post, eu vi exatamente o que me dificulta nessa narração: eu me envolvo muito nas minhas estórias (até na dos outros, mas isso não vem ao caso). Acho que todo o sentimento e pensamento das personagens acabam fluindo em mim. Não quero dizer que a minha escrita é fodástica, e o meu enredo seja um roteiro de filme, not. Mas é como eu disse, eu me envolvo bastante.

    Um coisa que tu colocaste sobre o narrador personagem, sobre ele contar apenas sobre o seu ponto de vista, me fez lembra do Machado de Assis. Sério, ele é um mentiroso, quero dizer, os seus personagens são ;)

    Enfim, minhas dúvidas foram esclarecidas, e se elas voltarem, sobre este mesmo tema, eu volto aqui, se for sobre outra coisa, eu lhe pergunto :)
    bjssss :****

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  2. oiee!! que bom que deu pra esclarecer alguma coisa com o post. E sim, realmente a prática é quem faz de um mestre em mestre! aiuhauiahui :D

    Eu já li Dom Casmurro quando estava na escola (há séculos atras T_T) e odiei a leitura. Mas acho que Dom Casmurro não deve ser uma leitura pra crianças. Eu tenho o livro aqui em casa, qualquer dia desses vou tentar relê-lo. Eu tenho uma outra amiga que é apaixonada pelo livro, e sempre fala bem dele, que até deu vontade de me arriscar novamente. Qualquer dia desses eu farei isso.

    Sobre se envolver nas estórias, é normal. Aliás, mostra o quanto ela é importante pra ti, e acho que isso é bom. Por que quanto mais nos envolvemos com algo, mais nos empenhamos sobre ela. Tu só precisa praticar mais, mesmo. Tente escrever contos curtos mesmo, por mais bobos que sejam, só pela prática. Isso, com certeza, vai te ajudar. ;)

    bjss :***************

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  3. Cada vez mais apaixonada pelo seu blog, ajuda muito não só na escrita, mas em trabalhos.
    Amei o post.
    Beijos

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  4. ahh, que bom saber que estou ajudando com algo, querida! fico feliz por saber que gostou do post também! ^_^
    bjsss :***********

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  5. Amanur, por favor faça um post sobre tempos verbais
    Obs: amo suas historias

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  6. Olá, anônimo! ^__^ pode deixar que elaborarei um post sobre isso, sim, nesse fim de semana mesmo! :) obrigada pelo comentário. bjss :************

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